
Stranger Things:
um portal para o passado presente
na memória
afetiva de uma geração
Por Fabiane Corrêa Monteiro
Considerações
iniciais
Um
menino desaparece de forma misteriosa, na cidade de Hawkins, em Indiana, e a população passa a procurá-lo desesperadamente.
Nas buscas por esse menino e nos esforços por entender o que teria
acontecido, centra-se o enredo de Stranger Things, série cujo sucesso para além
dos aficionados no gênero tem impressionado de forma positiva aos críticos
especializados, para quem o segredo de tamanha popularidade pode estar em sua
ambientação: a história se passa na década de 80, e muitas são as pessoas que
têm acompanhado a trama tendo como principal interesse as referências à época.
Diferentemente
de outras séries que se tornaram fenômenos na cultura de fãs por estimularem
práticas como a especulação e o desenvolvimento de teorias (aconteceu com Lost há
alguns anos e hoje acontece com Game
of Thrones), Stranger Things despertou
no público uma resposta intensa e positiva que é baseada na memória afetiva e
na celebração da nostalgia. É
um retorno ao clima de Sessão da Tarde, ainda tão presente no imaginário de uma
geração hoje na faixa dos 40 anos, que traz a satisfação daquilo que é
conhecido e familiar. (BANDEIRA, 2016)
O presente ensaio tem por objetivo compreender por que a
série Stranger Things tem atraído tantos adeptos, a partir de reflexão acerca
deste fenômeno que as últimas décadas têm apresentado: o resgate do passado
individual ou coletivo através da celebração ao que foi marcante e
inesquecível, impressionante principalmente porque parte destes apreciadores da
década de 80 nem sequer a viveram.
Entre
os muitos espectadores que passaram o último fim de semana devorando os oito
episódios [de Stranger Things], estão tanto os cinquentões que
eram adolescentes em 1983 quanto a legião de jovens e crianças que nunca gravou
uma fita cassete ou assistiu a um televisor sem controle-remoto. A receita deu
tão certo que, mesmo antes da estreia, a série já tinha uma segunda temporada
confirmada. (LAITANO, 2016)
Trata-se de
uma pesquisa de natureza qualitativa, desenvolvida a partir de levantamento
bibliográfico, que se inicia com a apresentação ao leitor da definição de
nostalgia e saudosismo, passa por um capítulo voltado para a década em análise,
com dados fundamentais para que se entenda o porquê desta febre oitentista, e
se encerra com as considerações a respeito do que poderia ter contribuído para
que a série Stranger Things estivesse entre as preferidas de tantas pessoas.
A
nostalgia que insiste em voltar nossos olhos ao passado
O
dicionário Houaiss de Língua Portuguesa define a palavra nostalgia de três
formas possíveis: 1. saudade da terra natal; 2. desejo de se voltar ao passado;
3. tristeza sem causa definida. Esse apego ao que já passou, também definido
pelo dicionário mencionado anteriormente como saudosismo, é comum a todos os
aficionados na década de 80, que enxergam em cada referência de Stranger Things
à época uma oportunidade de recordar tudo aquilo que viveram — das roupas que
vestiram às músicas que escutaram, das descobertas que quando crianças e/ou
adolescentes tiveram aos valores que um dia compartilharam.
Nostalgia é uma
preferência (gosto geral, atitude positiva ou efeito favorável) com relação a
objetos (pessoas, lugares ou coisas) que eram mais comuns (populares, da moda,
ou mais presentes) quando se era mais jovem (na juventude, adolescência, na
infância ou até mesmo antes do nascimento). (HOLBROOK e SCHINDLER, 2003, p. 108
apud COMASSETTO et al, 2013)
Há quem
entenda a nostalgia como uma consequência do descontentamento das pessoas em
relação ao presente, pois "aqueles indivíduos que estão felizes, cheios de
si e em controle, com sólidos sistemas de suporte social, tendem a não reagir
nostalgicamente às imagens do passado" (GOULDING, 2001 apud COMASSETTO et al, 2013). Para alguns, há uma
tendência de melhorar o que de fato ocorreu (HOLBROOK, 1993 apud COMASSETTO et al, 2013). Para
outros, pode representar uma estratégia que as
pessoas utilizam para lidar com as contradições da vida contemporânea (LYON e
COLQUHOUN, 1999 apud COMASSETTO
et al, 2013).
O homem só se
sente bem em determinadas circunstâncias, como se precisasse de um mundo à sua
medida. Se ele é muito grande, sente o vazio; se é muito pequeno, o oprime.
Esta constitutiva necessidade de viver num mundo próprio de dimensões ajustadas
é a premente necessidade do mundo angustiado, ou seja, a necessidade de ter um
mundo próprio no qual ele mesmo pode realizar-se sem ter que recorrer à luta
desmedida e à competição. (MOSQUERA, 1975, p. 84)
Voltar os olhos ao
passado e sentir que a vida parecia bem mais fácil e encantadora é, portanto, algo
que há muito tempo tem acompanhado o ser humano, e sem dúvida a força motriz
para o fenômeno que tem levado tantas pessoas a celebrarem, em plena era digital,
a década em que tudo ainda era analógico.
Entre o
analógico e o digital: a influência da revolução tecnológica nas relações
interpessoais
Cena de Stranger Things, episódio 2: um garoto
apresenta a sua casa à menina que ele e seus amigos quando procuravam pelo
menino desaparecido haviam encontrado em meio à floresta, repara em seu
interesse pela televisão de tubo na sala e descreve a ela o objeto, dizendo “Legal, né? Tem 22 polegadas. É dez vezes
maior que a do Dustin.” Em 1983, ano em que a primeira temporada da série se
passa, assim eram os televisores, que foram perdendo espaço no mercado para as
telas finas de LED e LCD e viraram dinossauros tecnológicos com a chegada da TV
digital.
As mudanças, no entanto, não se restringiram aos aparelhos eletrônicos: o desenvolvimento tecnológico também reconfigurou o modo de ser, agir, se relacionar e existir dos indivíduos (KOHN e MORAES, 2007), grande parte devido à implantação das redes mundiais de informação e comunicação, que revolucionou o funcionamento tradicional das sociedades modernas como o fizeram, a seu tempo, a imprensa, a máquina a vapor, a eletricidade ou a telegrafia sem fio (DUMAS, 201-).
As mudanças, no entanto, não se restringiram aos aparelhos eletrônicos: o desenvolvimento tecnológico também reconfigurou o modo de ser, agir, se relacionar e existir dos indivíduos (KOHN e MORAES, 2007), grande parte devido à implantação das redes mundiais de informação e comunicação, que revolucionou o funcionamento tradicional das sociedades modernas como o fizeram, a seu tempo, a imprensa, a máquina a vapor, a eletricidade ou a telegrafia sem fio (DUMAS, 201-).
Uma
etapa decisiva foi superada em 1990 com a criação, por um pesquisador do
Conselho Europeu para a Pesquisa Nuclear em Genebra (Cern), Tim Berners-Lee, do
protocolo HTTP (Hyper Text Transfer Protocol) e da linguagem HTML (Hyper Text
Markup Language), que permitem navegar de um site a outro, ou de uma página a
outra. A World Wide Web (www) lançou seu voo, e a internet se abriu ao público,
empresas particulares e privadas. Uma multidão de sites apareceu. (DUMAS,
201-)
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Nas redes
sociais como o facebook — ou nos blogs — as pessoas narram a si mesmas diante
do outro como obra aberta, transformada diariamente. Diferente de um diário
pessoal, o que se narra é para ser lido, avaliado, tornar-se público —
instantaneamente. São espaços de exercício da escrita com "júri
popular". Por isso mesmo, há uma seleção meticulosa daquilo que se quer
dividir e tornar público. (PENTEADO, 2013)
A
mesma autora citada anteriormente ainda salienta que existe uma preocupação
excessiva em compartilhar apenas o lado bom da vida, aquilo que é positivo. “Por
isso, é um ambiente de meias-verdades — a parte que se deseja revelar.
Procura-se construir o melhor personagem de si mesmo — uma encenação
conveniente.” (PENTEADO, 2013)
Considerações
finais
Holbrook e Schindler (2003), em uma pesquisa
interpretativa de caráter fenomenológico sobre a nostalgia, a associaram a
experiências sensoriais, lar, ritos de passagem, amizade e pessoas amadas,
presentes de amor, segurança, fuga, arte e entretenimento, desempenho e
competência, e criatividade.
O lar
relaciona-se com objetos de um local ou época distante, próximo da infância,
sendo uma conexão emocional com o aspecto familiar. Já os objetos de fuga
lembram momentos de liberdade física, como viajar, enquanto a arte e o
entretenimento representam abstração, sair da rotina, uma forma de liberdade
espiritual. (COMASSETTO et al, 2013)
É perfeitamente compreensível, portanto, que tantas
pessoas voltem seus olhos ao passado em busca do que se perdeu, mesmo que
tantos avanços tecnológicos tenham ocorrido depois. Não é mais preciso esperar
que uma carta traga notícias de alguém que está muito longe, basta enviar um
e-mail; não é mais preciso procurar
pelas informações necessárias para um trabalho nos livros de uma biblioteca,
basta pesquisar sobre o assunto em um site de buscas; não é mais preciso gravar
uma música em uma fita K7 para tornar a escutá-la, basta encontrá-la disponível
para download; não é mais preciso gravar um videoclipe em uma fita VHS para
tornar a assisti-lo, basta ter acesso ao conteúdo que estiver disponível no
YouTube. O homem da era digital tem tudo
a seu alcance, é verdade. A sociedade de consumo e o poder aquisitivo que esse
homem passou a ter permitiram que tudo comprasse, o que não acontecia na década
de 80, também conhecida como a década perdida, porque foi marcada por uma
profunda crise econômica. Em compensação, tornou-se refém da imagem projetada
de si mesmo nas redes sociais, em seus esforços diários por manter as
aparências, por ostentar. De nada vale, para ele, comprar e não ter a quem
mostrar, prestando as redes sociais, deste modo, um grande favor à sua vaidade.
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REFERÊNCIAS
BANDEIRA,
Ana Paula. Por que “Stranger Things”
virou fenômeno pop. Disponível em: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/proa/noticia/2016/08/por-que-stranger-things-virou-fenomeno-pop-7165125.html Acesso
em: 23 set. 2016.
BARBOSA,
Lívia. Sociedade de consumo. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
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São Paulo: Cultrix, 1983.
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ingredientes da boa série de TV. Disponível
em: http://veja.abril.com.br/entretenimento/stranger-things-e-os-5-ingredientes-da-boa-serie-de-tv/ Acesso em: 23 set. 2016.
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v. 53, n. 4, p. 364-375, 2013. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-75902013000400004&lang=pt
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história das redes sociais: como tudo começou. Disponível em: http://www.tecmundo.com.br/redes-sociais/33036-a-historia-das-redes-sociais-como-tudo-comecou.htm Acesso
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da internet. Disponível em: http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/o_nascimento_da_internet.html
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of Consumer Behaviour, v.
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