13
Reasons Why
Por Fabiane Corrêa
Monteiro
“Só
Deus sabe quantas vezes vou dormir desejando nunca mais despertar; e, pela
manhã, quando abro os olhos e torno a ver o sol, sinto-me um desgraçado”
Os
sofrimentos do jovem Werther
Goethe
Descobri recentemente
que o fenômeno social no qual muitas pessoas tiram a própria vida depois de um
suicídio amplamente divulgado chama-se Efeito Werther, uma referência à obra do trecho reproduzido acima, não por acaso
considerada o marco inicial do Romantismo alemão. A identificação com o protagonista
desta obra-prima de Goethe, que recorrera à própria morte diante da
impossibilidade de concretização do amor que sentia por uma mulher comprometida,
teria sido responsável por uma onda de suicídio.
Há quem afirme veementemente
que 13 Reasons Why, série da Netflix que tem feito muito sucesso e gerado muita
polêmica por contar a história de uma menina que cometera suicídio, estaria provocando
reação semelhante entre os mais jovens, apontando a existência de uma possível
relação entre a série e o jogo proliferado recentemente pelas redes sociais no
qual o adolescente precisa cumprir diversas tarefas até chegar à última: tirar
a própria vida. Mas, afinal, a simples abordagem de um assunto, por mais
delicado que possa ser, pode realmente influenciar as pessoas a esse ponto? Além
disso, deixar de divulgar casos de suicídio pode impedir de fato que continuem
a acontecer?
Quando
um caso de suicídio é amplamente divulgado, há o risco de aumento na incidência
desse evento, cometido por outras pessoas utilizando o mesmo método. As pessoas
podem se identificar com a personagem ou com o suicida célebre. (LOCH, 2017)
Hannah Baker, a menina
que comete suicídio na série 13 Reasons Why, deixando em fitas o relato de
todos os acontecimentos que a levaram a tomar tal decisão, sofre todo tipo de violação a seu corpo e a sua
imagem: troca beijos em uma praça com um menino, que não só mente aos outros
ter transado com ela como ainda compartilha uma foto na qual desce de um
escorregador e acidentalmente aparece sua calcinha; um menino que ela
considerava amigo a inclui numa daquelas listas nas quais toda garota já deve
ter sido incluída alguma vez em sua vida, e, como é apontada como a garota da
“bunda mais gostosa” da escola, os meninos passam a acreditar que podem tocar
em seu corpo quando bem entendem; outro menino passa a segui-la e a
fotografá-la, e não hesita em divulgar a imagem captada de um momento íntimo
que Hannah tivera com uma colega; outro colega aproveita-se de uma atividade
realizada pela escola só para também tentar molestá-la. A identificação com a
narradora-protagonista, deste modo, é inevitável: que mulher, em algum momento
de sua vida, nunca viveu algo parecido?
O que talvez tenha
chocado tanto as pessoas em 13 Reasons Why é que a história não acontece como
em um filme adolescente dos anos 80 ou 90, em que a garota considerada feia e
desajeitada pela maioria, submetida a um “banho de loja”, passa a ser aceita
pelas garotas mais populares da escola, tornando-se a rainha do baile de
formatura. 13 Reasons Why choca porque mostra a realidade: o excluído
continuará excluído, nada fará com que deixe de ser excluído, nem mesmo um “banho
de loja”. Há uma crítica na série à hipocrisia das relações sociais, às
relações de poder que se estabelecem entre as pessoas, que não percebemos
quando somos crianças mas se tornam evidentes quando nos tornamos adolescentes
e passamos a presenciar, na escola, o poder que o mais forte sempre exercerá
sobre o mais fraco, sem que nada os demais façam para evitar — quem pratica o
bullying costuma contar com o apoio de uma multidão omissa e silenciosa. O
suicídio, nesse sentido, surge como uma válvula de escape da qual a vítima faz
uso como a solução para seus problemas. No caso de Hannah Baker, a solução para
sua solidão:
Hannah Baker
Você vai me
dizer que não é nada de mais, mas vou dizer uma coisa sobre como é ser
solitário. [...] Mesmo as interações sociais mais básicas ajudam a nos manter
vivos. [...] Há muitas formas de se sentir só. Não estou falando da solidão
típica de se sentir sozinho no meio de uma multidão. Isso acontece com todos,
todos os dias. [...] O tipo que eu estou falando é quando você sente que não
sobrou nada. Nada. Nem ninguém.
Deste modo, entendo que
as pessoas tenham medo de falar a respeito: a história de Hannah Baker se
confunde com a história de muitas das meninas que conhecemos, e se confunde
também com a história de cada uma de nós. A ampla divulgação de um suicídio pode
de fato exercer influência sobre os demais, é verdade, mas é importante deixar
claro que só há identificação quando há sofrimento: somente nos identificamos
com aquilo que nos representa, com aquilo que nos toca profundamente, com
aquilo que fala por nós.
REFERÊNCIAS
BAITELLO,
Marina. Copycat Suicide: um fenômeno
após suicídios célebres e a história da canção suicida. Disponível em: http://lounge.obviousmag.org/resumindo_e_substituindo_o_mundo/2014/08/copycat-suicide-um-fenomeno-apos-suicidios-celebres-e-a-historia-da-cancao-suicida.html
Acesso em: 21/05/2017.
GAZOLA, André. Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe.
Disponível
em: http://www.lendo.org/os-sofrimentos-do-jovem-werther/
Acesso em: 22/05/2017.
GOETHE. Os Sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Editora Martin Claret, 2009.
LOCH, Alexandre A. 13 Reasons Why e Baleia Azul: O perigo do Efeito Werther. Disponível em: http://www.huffpostbrasil.com/alexandre-a-loch/13-reasons-why-e-baleia-azul-o-perigo-do-efeito-werther_a_22058340/ Acesso em: 20/05/2017.
LOCH, Alexandre A. 13 Reasons Why e Baleia Azul: O perigo do Efeito Werther. Disponível em: http://www.huffpostbrasil.com/alexandre-a-loch/13-reasons-why-e-baleia-azul-o-perigo-do-efeito-werther_a_22058340/ Acesso em: 20/05/2017.
ROSO, Larissa; MELO, Itamar. “13 Reasons Why” e o suicídio de jovens: o
que especialistas veem de positivo e de negativo na série. Disponível em: http://zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/noticia/2017/04/13-reasons-why-e-o-suicidio-de-jovens-o-que-especialistas-veem-de-positivo-e-de-negativo-na-serie-9775601.html Acesso em: 18/05/2017.

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